REZAR A GRATIDÃO
Oliveira
É mais fácil recordar a pequena gratidão que os outros nos devem do que aquela sem medida que nos torna devedores de todos. Não reparamos, ou nem sempre reparamos, quanto a nossa vida é amparada por uma coreografia anónima de gestos que generosamente confluem ao nosso encontro; quanto é sustentada pela multiplicação quotidiana de dádivas, pela laboriosa fadiga de uma multidão de conhecidos e desconhecidos, pela conspiração benevolente do amor. Não reparamos, ou nem sempre reparamos, quanto dependemos desse fluxo de vida que é maior do que nós e no qual tantas mulheres e homens se empenham intensamente. É mais fácil considerarmos que tudo o que temos é um direito natural e adquirido, em vez de aceitarmos a mais manifesta das verdades: que a vida é dom, que as coisas mais importantes nós as recebemos como pura graça, que tudo o que é amável nos excede. É mais habitual nos dividirmos entre a reivindicação áspera e o resmungo exasperado, prisioneiros da sonâmbula ingratidão que se torna um labirinto, em vez de encontrar tempo para aquela gentileza espiritual que nos faz expressar mais vezes o reconhecimento fundamental que devemos aos outros. Por isso Te peço Senhor: dá-me um coração bondoso, humilde e grato. Dá-me um coração consciente até ao fim de que é um coração hipotecado.
Cardeal Tolentino de Mendonça
5-10-2020.
