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CONFEDERAÇÃO PORTUGUESA DE ANTIGOS/AS ALUNOS/AS DO ENSINO CATÓLICO

Espaço aberto a comunicações de antigos alunos do ensino católico em Portugal.

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CONFEDERAÇÃO PORTUGUESA DE ANTIGOS/AS ALUNOS/AS DO ENSINO CATÓLICO

27
Abr25

50 anos das primeiras eleições livres


Oliveira

Caríssimos:

Partilho este artigo também com os leitores do Blog da COPAEC.

Um abraço

Pedro Vaz Patto

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A consolidação da democracia como hoje a concebemos e vivemos em Portugal conheceu sérios obstáculos e para os superar foram decisivas essas eleições (de 25 de abril de 1975). Importa dar valor à possibilidade que temos, de nos pronunciar livremente sobre os destinos do nosso país.

 

Comemoram-se dentro de dias os cinquenta anos das primeiras eleições livres e com sufrágio universal da história de Portugal: as eleições para a assembleia que veio a aprovar a Constituição que, com sucessivas revisões, ainda hoje nos rege.

Na verdade, nenhuma das eleições anteriores, da monarquia constitucional da primeira República e do Estado Novo, foi verdadeira e simultaneamente, livre e universal.

Nem todos concordarão comigo, mas penso sinceramente que o júbilo e relevância associados a este cinquentenário são maiores do que os associados ao cinquentenário da revolução de 25 de abril que comemorámos no ano passado.

Digo isto porque nesse primeiro ano que se seguiu à revolução, e também depois das eleições para a Assembleia Constituinte, a consolidação da democracia como hoje a concebemos e vivemos em Portugal conheceu sérios obstáculos e para os superar foram decisivas essas eleições. Foram elas o acontecimento fundador da democracia em Portugal, num contexto em que era crescente a influência social e política de forças que rejeitavam o modelo daquela a que então se chamava redutivamente “democracia de tipo ocidental”, ou, segundo essas forças, “democracia burguesa”, por oposição à “democracia popular” (então vigente em países do leste da Europa). Ficou célebre a afirmação de Álvaro Cunhal, numa entrevista à jornalista italiana Oriana Fallaci, de que nunca haveria em Portugal uma democracia parlamentar.

Nessas eleições de 1975, eu ainda não tinha idade para votar, mas recordo-me bem de as seguir com o vivo interesse próprio dos adolescentes e jovens da altura. Recordo-me que sectores com alguma influência no Movimento das Forças Armadas não valorizavam essas eleições e chegavam mesmo a apelar à abstenção, alegando que o povo, particularmente o do Norte do país, não estava devidamente preparado (queriam dizer: não estava devidamente doutrinado).

Apesar desses apelos e do clima de grande instabilidade e incerteza que então se vivia, a participação nessas eleições atingiu cerca de 92%, percentagem que nunca voltou a repetir-se, até hoje, em eleições portuguesas. Também me recordo bem das imagens de pessoas aguardando pacientemente em longas filas de espera a sua vez de votar (o que muitos faziam pela primeira vez).

Essa participação foi uma eloquente resposta de adesão do povo à tal “democracia de tipo ocidental”. O contraste com os elevados níveis de abstenção que se têm registado nas mais recentes eleições (abstenção que até se nota mais nos jovens) é motivo de reflexão: muitas vezes só valorizamos os bens a que temos acesso quando os recebemos pela primeira vez ou quando os perdemos, e não quando eles se tornaram habituais. Mas devemos reagir a essa tendência.

Importa dar valor à possibilidade que temos, de nos pronunciar livremente sobre os destinos do nosso país e que a alternância entre diferentes propostas de governo possa ocorrer pacificamente. São muitos os países privados dessa possibilidade e onde a consolidação das instituições democráticas espera ainda melhores dias.

A propósito, tenho acompanhado a situação contrastante de dois países nossos irmãos de língua portuguesa: Cabo Verde, por um lado, onde essa alternância tem ocorrido com normalidade exemplar no contexto africano, e Moçambique, por outro lado, onde as últimas eleições foram marcadas por fraudes destinadas a impedir essa alternância, com a consequente reacção de rejeição popular dos resultados e a violenta repressão dessa reacção.

Não podemos ignorar, por outro lado, a tendência que hoje se evidencia cada vez mais em muitos países, precisamente nos mais poderosos (até nos Estados Unidos, um país historicamente pioneiro na institucionalização da democracia) de reforço de um autoritarismo que assume formas diversificadas. Por vezes, com base na regra da maioria. Mas a democracia não decorre apenas da regra da maioria, exige o respeito pelos direitos humanos e pelas regras próprias do Estado de Direito. São essas regras que evitam a absolutização de qualquer poder (mesmo o que se baseia na regra da maioria) e nunca fecham a porta à possibilidade de alternância.

É célebre a afirmação de Wiston Churchill, segundo o qual a democracia será certamente um regime imperfeito, mas ainda não se inventou outro melhor.

É também esse o princípio claramente acolhido pela doutrina social da Igreja, sobretudo desde uma histórica mensagem de Pio XII, do Natal de 1944 (durante a Segunda Guerra Mundial, pois), por vezes qualificado como de “baptismo” da democracia (ver site Vaticano). Mas nela também se clarifica o que distingue uma sã democracia.

Nela se proclama o princípio personalista que funda essa sã democracia: a pessoa humana «(…), longe de ser o objecto e um elemento passivo da vida social, deve antes ser e permanecer, o seu sujeito, fundamento e fim»

E se afirma que para uma correcta visão da democracia, há que ter presente a distinção entre “povo” e “massa”: «O povo vive e move-se por si próprio, a massa é, por si, inerte e só pode ser movida de fora. O povo vive da plenitude da vida dos homens que o compõem, cada um dos quais – no seu lugar e à sua maneira – é uma pessoa consciente das suas responsabilidades e das suas convicções. A massa, pelo contrário, espera um impulso de fora, jogo fácil nas mãos de quem quer que explore os seus instintos ou impressões, pronta a seguir, à vez, hoje uma bandeira, amanhã outra». Esta é uma distinção particularmente actual, como antídoto contra o populismo.

E é também actual outra ideia-força dessa mensagem: «Uma sã democracia, fundada sobre os imutáveis princípios da lei natural e da verdade revelada, será resolutamente contrária àquela corrupção que atribui à legislação do Estado um poder sem travões nem limites, que faz também do regime democrático, apesar das aparências contrárias mas vãs, um puro e simples sistema de absolutismo».

São, pois, estes os motivos porque entendo que devemos celebrar com grande júbilo o cinquentenário das eleições de 25 de abril de 1975, um passo no sentido da construção de uma sã democracia.


* Pedro Vaz Patto, Juiz, Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz

04
Abr25

Europa, uma promessa de paz


Oliveira

Com a devida vénia, transcrevemos, para os leitores do nosso Blog o artigo que segue, do Dr. Pedro Vaz Patto, publicado no site da Rádio Renascensa.

(A. G. Pires)

A paz autêntica constrói-se com menos armas, não com mais.

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Opinião do Dr. Pedro Vaz Patto

Uma justificada perplexidade suscita o facto de a União Europeia, que pode ser caracterizada como um muito bem sucedido projeto de paz, e por isso mesmo foi já agraciada com o prémio Nobel da Paz, está agora seriamente empenhada num inédito reforço das suas despesas militares. “Rearmar a Europa” parece ser hoje o seu mais importante e urgente desafio.

Na verdade, o projecto da unidade europeia nasceu dos escombros da Segunda Guerra Mundial, da vontade de nunca mais repetir tão trágica experiência, um drama que culminou séculos de conflitos bélicos que invariavelmente ensombraram a história do nosso continente. Uma nova era então se abriu, em que a esses conflitos se deveria suceder uma ordem internacional governada pelo direito, e já não pela força, e também pela cooperação económica geradora de uma interdependência que dificulta qualquer guerra. Mais até do que a prosperidade que conheceram as gerações europeias nascidas desde então, foi a paz de que elas usufruíram, e de que não usufruíram as gerações que as precederam, o fruto mais precioso do projecto de unidade europeia.

Com a adesão a esse projecto dos países libertados do comunismo e o fim da divisão do mundo em blocos ideológicos e da “guerra fria”, um grande passo em frente foi dado no sentido do reforço da unidade europeia, que agora pretendia abarcar todo o continente.

Depois da invasão da Ucrânia, essa nova era de paz parece ter chegado ao fim, como se ela não fosse mais do que um parêntesis que se fechou, e nos devêssemos resignar à habitualidade dos conflitos de poder e da guerra, ao predomínio do “direito da força” e já não da “força do direito”. Essa invasão violou a mais básica norma do direito internacional. A guerra de agressão e conquista (e já não apenas a “guerra fria”) regressou à Europa.

A ameaça que representam os propósitos expansionistas do governo russo não pode ser ignorada. Não é um fantasma. A ocupação de todo o território ucraniano só não se concretizou devido à resistência das forças armadas ucranianas e ao apoio que estas receberam sobretudo dos Estados Unidos e da União Europeia. Porque o apoio do governo norte-americano se esvaneceu, é do apoio da União Europeia que depende agora a defesa da soberania da Ucrânia.

Tais propósitos expansionistas do governo russo não se limitam ao território ucraniano. Não é ficção considerar que esses propósitos se estendem aos países que integraram a União Soviética. Putin já várias vezes afirmou que o desmantelamento da União Soviética foi a maior tragédia geopolítica do século vinte. Não é por acaso que os países bálticos aderiram à NATO logo depois da sua independência e são dos que mais apoiam a Ucrânia. Nem é por acaso que a Suécia e a Finlândia, países geograficamente próximos desses, aderiram à NATO depois da invasão da Ucrânia, o que nunca fizeram durante a “guerra fria”.

Esta ameaça não é ignorada pelos representantes dos bispos europeus que integram a COMECE no comunicado que emitiram depois da sua última assembleia plenária, a 28 de março passado (acessível em www.comece.eu). Nele se reconhece que a União Europeia deve ser capaz de se proteger, de proteger os seus cidadãos e de proteger os valores em que assenta, e para tal protecção são justificados investimentos em defesa necessários, adequados e proporcionais.

No entanto, também adverte tal comunicado que a União Europeia não pode deixar de ser aquele projecto de paz que está na sua base (ela é uma “promessa de paz” na expressão do Papa Francisco). Por isso, e por um lado, não podem as acrescidas despesas em armamento sacrificar despesas relativas à protecção da dignidade humana, à justiça social, ao desenvolvimento humano integral e ao cuidado da criação (há que salientar, a este respeito, que foi isso mesmo que sucedeu no Reino Unido, facto que levou à demissão da ministra responsável pela área da cooperação internacional).

Por outro lado, salienta também esse comunicado que essas despesas acrescidas não podem dar origem a uma corrida armamentista que não serve a causa da paz, mas apenas interesses comerciais.

Na verdade, a paz autêntica e duradoura não nasce da lógica da ameaça e da dissuasão (a que leva a dizer: “se queres a paz, prepare a guerra”). Essa lógica gera um equilíbrio sempre instável e perigoso e uma espiral sem fim. A ela não podemos resignar-nos, como se não houvesse alternativas.

A paz autêntica constrói-se com menos armas, não com mais. É certo que o desarmamento que constrói a paz tem de ser multilateral, não unilateral. Se for unilateral, pode ser um incentivo para guerras de agressão (veja-se o que sucedeu à Ucrânia depois de ter renunciado ao seu armamento nuclear). Mas desse desarmamento multilateral não podemos nunca desistir e para tal devemos canalizar todos os esforços da diplomacia, da mobilização da opinião pública e da acção cívica em todos os Estados. É isso que se espera da União Europeia como “promessa de paz”.

01
Abr25

O que fazer de tanta igreja


Oliveira

Com a devida vénia, a COPAEC partilha mais um artigo de Pedro Vaz Patto, publicado recentemente no jornal «A Voz da Verdade» que provavelmente nem todos leram.

Vale a pena reflectir. - Para onde caminha a nossa Europa?

A G Pires

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Têm me chegado ultimamente notícias de movimentos organizados de protesto contra o destino que é dado, ou pode vir a ser dado, a igrejas que, em França, deixaram de ser afectas ao culto: um destino que muitas vezes nada tem a ver com aquele para o qual foram construídas. Este fenómeno é cada vez mais frequente em países do Norte da Europa, em igrejas católicas e (nalguns casos ainda mais) de outras denominações cristãs.

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Nada nos garante que não venha a atingir também os países do sul da Europa, como o nosso. Edifícios que durante décadas, ou mesmo séculos, foram lugares de oração e louvor a Deus são vendidos por agências imobiliárias como qualquer outro edifício e podem vir a servir de habitação, sala de espetáculo, restaurante, bar ou ginásio. Alguns também são, pura e simplesmente, demolidos. Os custos da sua manutenção não são suportáveis por comunidades cada vez menos numerosas. Nem sempre o seu valor histórico e artístico poderá justificar o apoio das entidades públicas de proteção do património cultural.

Verifiquei pela primeira vez algo de semelhante quando visitei a Rússia e a Ucrânia ainda nos tempos da União Soviética: antigas igrejas utilizadas como qualquer outro edifício. Nesse caso, tratava-se do reflexo de uma política de perseguição à religião. Hoje já não é assim. O reflexo não é de uma perseguição ao culto religioso, mas de uma indiferença perante esse culto e sua desvalorização.

Compreendo que se procure por todos os meios possíveis destinar antigas igrejas a fins que sejam compatíveis com aquele que esteve na origem da sua construção e corresponde à sua utilização por sucessivas gerações. Até na perspectiva da protecção do património cultural, desrespeitar esse fim é desvirtuar a própria essência e o sentido da obra de arte em causa, é uma agressão quase tão grave como seria a sua destruição. É muito diferente utilizar uma antiga igreja em concertos de música sacra ou noutros tipo de espectáculos, como museu de arte sacra ou como sala para outro tipo de exposições, em actividades de solidariedade social ou em qualquer actividade comercial.

Ao sentir desolação e tristeza perante este fenómeno, também me vêm à mente dois pensamentos que afastam essa desolação e essa tristeza.

Um, o de que a vitalidade da Igreja não depende de igrejas, de edifícios perecíveis. Muitas foram as igrejas construídas e destruídas ao longo dos séculos. A Igreja não é formada por esses edifícios, essas pedras, mas pelas pessoas, “as pedras vivas do templo do Senhor”. E nela nascem e crescem sempre frutos de santidade em todas as épocas, talvez até ainda mais em épocas de perseguição ou indiferença.

É verdade que os frutos da vitalidade da Igreja também se têm traduzido em obras de arte, que são uma riqueza do nosso país e da nossa Europa. Mas as raízes cristãs da cultura europeia não podem ser reduzidas a peças de museu; a sua vitalidade depende do testemunho da vida dos cristãos hoje, não apenas no passado.

E também tenho a certeza de que o mesmo Deus que fez gerar todos esses frutos, no campo da santidade, mas também no campo da cultura e da arte, não deixará de fazer gerar novos e muitos mais no futuro.

Pedro Vaz Patto

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