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CONFEDERAÇÃO PORTUGUESA DE ANTIGOS/AS ALUNOS/AS DO ENSINO CATÓLICO

Espaço aberto a comunicações de antigos alunos do ensino católico em Portugal.

Espaço aberto a comunicações de antigos alunos do ensino católico em Portugal.

CONFEDERAÇÃO PORTUGUESA DE ANTIGOS/AS ALUNOS/AS DO ENSINO CATÓLICO

27
Mar25

CONTAMOS CONTIGO ESTE SÁBADO (29-MAR) NA CAMINHADA PELA VIDA EM 12 CIDADES DE PORTUGAL?


Oliveira

Partilho informação enviada pelo Dr. António Torres da "Federação pela Vida".

(A. G. Pires)

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Caros amigos

É já este Sábado (29 de Março) que em 12 cidades do país (no cartaz em anexo encontram os respectivos lugares e horas) vamos sair à rua na Caminhada pela Vida. Desta têm mais informações aqui no Instagram e aqui no Facebook. Aí encontrarão também as mensagens que nos dirigiram o Papa Francisco e os Bispos de Beja, de Lisboa e Viseu. Contamos ter a alegria de em futuras edições recebermos também mensagens de responsáveis de outras confissões cristãs ou crenças religiosas e convidamos vivamente todos os amigos que as professam a não hesitarem em dar visibilidade à sua participação na Caminhada!

Como uma notícia hoje do Público comprova (no caso sobre eutanásia) estes temas exigem que não baixemos os braços e é particularmente importante nesta circunstância pré-eleitoral que nas ruas de Portugal seja visível a nossa presença e anseios. Estamos todos convocados!

Mas há mais razões para vir à Caminhada: é o nosso grande encontro, alegre e afectuoso, “de família” entre aqueles que dedicamos o ano inteiro a tentar responder àquele desafio da Madre Teresa de Calcutá “não pararemos enquanto nas nossas cidades houver uma mulher que diga ‘eu abortei porque não encontrei quem me ajudasse’!” E um grande momento de nas nossas ruas quem nunca se interrogou sobre estes assuntos cruzar-se com os nossos rostos, as nossas faixas, posters, bandeiras, e assim confrontar-se com os nossos ideais. Contamos contigo?

Aos de Lisboa: até esta 5ª feira, às 21h15, momento de um encontro na sede da Federação, ainda aceitamos (aliás, desejamos!) voluntários para o dia nos diversos serviços que são necessários. As inscrições podem ser feitas pelo 910871873.

Um abraço a todos com a expectativa de uma grande jornada pela Vida este Sábado, do

António Pinheiro Torres

17
Mar25

Natalidade


Oliveira

Com a devida vénia, transcrevemos, para os leitores do nosso Blog o artigo que segue, do Dr. Pedro Vaz Patto, publicado no jornal digital "Sete Margens".

(A. G. Pires)

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Opinião de Pedro Vaz Patto

              Dados da Eurostat divulgados recentemente revelam que a queda da natalidade na União Europeia em 2023 foi a mais acentuada desde 1961 (foi de 5,6%), situando-se agora a taxa respetiva em 1,38 nascimentos por mulher, muito abaixo da necessária para assegurar a renovação das gerações (que é de 2,1). O “inverno demográfico” acentua-se cada vez mais.

            É inegável que um conjunto de condicionalismos económicos e sociais (entre nós mais recentemente e mais gravemente, a falta de acesso à habitação; mas também os baixos salários ou a dificuldade de conciliação entre o trabalho e a vida familiar) não facilitam a opção de ter filhos. Mas há outra dimensão do problema que não pode ser ignorada e que se liga ao fenómeno que os demógrafos designam como “paradoxo do desenvolvimento”: quanto maior o desenvolvimento, menor a taxa de natalidade. E a queda dessa taxa conduz sistematicamente a níveis inferiores aos necessários para a renovação das gerações, mesmo nos países com mais generosos apoios sociais em geral e também os especificamente dirigidos à natalidade. Há uma dimensão fundamental do “inverno demográfico” que depende da cultura e da mentalidade.

          Essa dimensão é analisada em dois livros em língua francesa que li recentemente com grande interesse, um de uma filósofa, de nome Marianne Durano (Naître ou le néant – Porquoi faire des enfants en temps d´effondrement, Desclée de Brouwer, 2024), e outro de uma jornalista e também filósofa, Azilis Le Corre (L´enfant est l´avenir de l´homme, Albin Michel, 2024), ambas jovens mães.

   

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              Uma e outra partem da verificação de uma realidade da nossa época inédita na história das civilizações: há quem pretenda negar o próprio princípio da bondade da procriação. Há pessoas e casais que assumem essa filosofia como estilo de vida: o estilo de vida “childfree” (livres de crianças) e dos casais “two incomes no kids” (dois rendimentos sem crianças). Uma das pretensas justificações para a opção da recusa da procriação tem a ver com a sobrevivência do planeta.

             A propósito destas supostas razões ecológicas para a grande limitação, ou mesmo recusa, da procriação, comenta a filósofa Marianne Durano que é incrível como a nossa civilização prefere renunciar à sua perenidade através da transmissão da vida a modificar os seus modos de produção e de consumo (são estes que estão na raiz da crise ecológica: os ultra-ricos consomem num dia mais do que qualquer família numerosa e, em média, cem pessoas etíopes consomem tanto como uma pessoa ocidental). Pelo contrário, é a vulnerabilidade das futuras gerações que lança as bases de uma autêntica moral ecológica e humana, a qual eleva a protecção da natureza a norma ética não contra o humano, mas em nome do humano. São os nossos filhos que o exigem. Optar por dar a vida apesar de tudo implica modificar drasticamente a nossa concepção de felicidade, retomando as lições das filosofias antigas que proclamavam a sobriedade feliz antes de esta se tornar uma necessidade ecológica.

               Das reflexões de Marianne Durano, são de sublinhar outras ideias.

              Contra o que já tem sido defendido (pretendendo justificar a recusa da procriação com base no bem das crianças que viessem a nascer), dar a vida é sempre um bem para quem nasce, nunca um dano (ao contrário do que afirma a jurisprudência iniciada pelo famoso acórdão Perruche, relativo ao nascimento de uma criança com deficiência). O nada não é superior ao ser. A vida é o pressuposto de todos os bens. Não tem sentido pensar que possa alguém preferir não ter nascido porque para isso é preciso que tenha nascido… Antes de qualquer cálculo utilitarista sobre a suposta felicidade de uma pessoa, há que permitir que essa pessoa exista e viva.

          Transmitir a vida é considerar que ela tem sentido e vale a pena, para além do gozo individualista do presente. Supõe uma visão que se alarga à comunidade e ao futuro. A vida que protegemos e transmitimos liga-nos como espécie ao destino de todos os outros e é este élan que mantém as sociedades através dos séculos e que justifica os nossos combates e as nossas invenções. Essa renovação potente funda o nosso compromisso social e político, porque só a vinda ao mundo de novos seres humanos pode motivar os seres mortais que somos a trabalhar por um mundo que lhe pode sobreviver. Uma sociedade que não se reproduz é uma contradição nos termos.

              O paradigma da responsabilidade moral é, como salienta o filósofo Hans Jonas, o de uma relação assimétrica e desinteressada. A relação assimétrica e desinteressada por excelência é a que existe entre um progenitor e um filho, entre quem dá a vida e quem a recebe.

           Acolher os nossos filhos como seres únicos e livres, como um dom que se recebe incondicionalmente e não como frutos de um projeto parental, é recusar a instrumentalização da vida. Gerar é acolher uma novidade radical e imprevisível, enquanto projetar é realizar um plano preciso e previsto de longa data. Esta perspectiva é incompatível com discursos natalistas que pretendem utilizar o corpo das mulheres para assegurar o domínio numérico de uma categoria da população contra outra (não é desse modo que se enaltece o valor da natalidade).

            Não controlamos os efeitos da geração de uma vida. Esta surpreende-nos sempre e pode também frustrar expectativas. A geração de uma vida implica uma forma de confiança e de fé. Qualquer compromisso ou vínculo de amor, de amizade ou de luta pressupõe uma fé no futuro. Gerar um filho é estender esta fé a um ser ainda mais frágil do que eu. A perspectiva de gerar seres para a Eternidade benevolente de Deus é um consolo. Mas esse Deus submeteu Abraão à prova do sacrifício do seu filho e ofereceu-nos o Seu na cruz. A fé em Jesus Cristo leva-nos a considerar as suas palavras: «quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la. Mas quem perder a sua vida por minha causa e da Boa Nova há de salvá-la» (Mateus 8, 35-36). Dar a vida implica, pois, estar pronto a perdê-la para assim a salvar.

             

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              Numa linha muito consonante com esta, exprime-se, de uma outra forma mais singela, a jornalista e também filósofa Azilis Le Corre.

Salienta ela como a queda da natalidade se liga ao tipo de sociedade que o sociólogo Zigmunt Baumann designa como “líquida”. Nesta não se valoriza, como noutras eras, o sacrifício individual em nome do grupo ou de uma causa.

             Outro aspecto que esta autora liga à queda da natalidade é a desvalorização da maternidade. Um certo discurso feminista de rejeição da maternidade não conduz à libertação ou capacitação da mulher, mas à sua alienação. A maternidade não é um simples destino biológico, nem uma construção social, mas a experiência que revela a especificidade da natureza feminina no que tem de mais valioso nos planos físico e psíquico. Essa experiência traduz-se na vivência da alteridade no seu próprio corpo. Essa mais intensa vivência da alteridade é a chave da superação do individualismo que caracteriza as sociedades “líquidas”.

          Superar a crise da natalidade depende da vivência do amor agápico, do amor de doação total entre um homem e uma mulher que conduz ao casamento e à procriação. Gerar uma vida torna visível um fruto dessa relação de doação total e representa também em si mesmo uma forma de doação total, que permite a passagem do não ser ao ser, a alguém de radicalmente novo que se introduz no mundo: o amor absolutamente doado e absolutamente recebido.

              Todas estas ideias e considerações revelam como são profundas as raízes que poderão conduzir ao fim do “inverno demográfico”.

Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica. 

15
Mar25

NA SOMBRA DO OLIMPO DE BRUXELAS


Oliveira

Pelo que contêm de muito actual e oportuno, a COPAAEC propõe para leitura e reflexão mais um artigo do jornalista A. Cunha Justo. Oportuno e conveniente, apesar de tudo…

(A. G. Pires)

Oh, que sorte a nossa, servos do temor,

Malignos vários, num só coro a cantar:

O clima, o vírus, Putin, Trump, o horror,

Um espectáculo pronto a nos assombrar!

 

Governantes, maestros do medo astuto,

Trombetas do alarme, sinfonias de pavor,

Criam fantasmas, depois vendem o escudo,

E nós, bobos da corte, pagamos com fervor!

 

"Combateremos o mal que nós mesmos tecemos!"

Segredam em Bruxelas, ao contar nosso ouro roubado.

Ah, que engenho, que arte! Quase não percebemos

Que o medo é deles, mas o tributo é do nosso lado.

 

Amigos cidadãos, cá estamos, a dançar,

Nesta valsa de sustos, tão bem orquestrada.

Malignos ao serviço do poder, a rodar,

E nós, de cabeças vazias, a aplaudir a jogada!

 

Governantes artesãos do medo: criam monstros, vendem espadas e cobram-nos por ambos. O verdadeiro mal? Acreditar que precisamos deles para nos salvar.

 

António CD Justo

Em Pegadas do Tempo https://antonio-justo.eu/?p=9994

14
Mar25

Síria em Tempos de Ramadão Muçulmano e de Quaresma Cristã


Oliveira

Pelo que contêm de muito actual e oportuno, a COPAAEC propõe para leitura e reflexão mais um artigo do jornalista A. Cunha Justo. Oportuno e conveniente, apesar de tudo…

(A. G. Pires)

A Paixão de Cristo continuada nos Massacres de Alauitas, Drusos e Cristãos na Síria

A situação na Síria permanece trágica, com violência sectária atingindo níveis alarmantes durante um período que coincide com o Ramadão muçulmano e a Quaresma cristã. A "operação militar" sunita síria, que visou especificamente minorias religiosas como alauitas, drusos e cristãos, resultou em massacres brutais e execuções selectivas, deixando a comunidade internacional em estado de choque. No entanto, a resposta dos políticos da União Europeia (UE) tem sido marcada por hipocrisia e inacção, levantando questões sobre o seu compromisso real com os direitos humanos e a democracia...

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH) documentou massacres que resultaram na morte de pelo menos 750 civis alauitas em 29 incidentes distintos entre 6 e 8 de Março de 2025. Famílias inteiras foram executadas, e os corpos foram enterrados em valas comuns. O conselheiro do ex-presidente do Conselho Alauita, Muhammad Nasser, alegou que mais de 1,7 mil civis foram mortos, incluindo membros das comunidades drusa e cristã...

Os políticos da UE expressaram alarme com a violência contra civis, mas a sua resposta tem sido amplamente criticada como hipócrita. Anteriormente, muitos deles haviam feito uma peregrinação à Síria para apertar as mãos de líderes islamistas após o golpe extremista, ignorando os princípios do Islão que justificam a perseguição de minorias religiosas e a mentira desde que sirva o islão. Agora, lavam as mãos como Pilatos, recusando-se a assumir responsabilidade pelas consequências das suas acções...

Os alauitas, grupo ao qual pertencia o presidente deposto Bashar al-Assad, foram antes alvo de uma campanha de desumanização através de propaganda antes de serem marcados para extermínio. A mesma sorte coube aos drusos e cristãos, que também foram brutalmente assassinados. Relatos  não confirmados indicam que cerca de 7.000 integrantes de minorias religiosas foram mortos, incluindo 1.000 cristãos, alguns dos quais foram crucificados.

 

Os media, no entanto, têm sido reticentes em cobrir a perseguição e os assassinatos de cristãos, muitas vezes ignorando ou minimizando a gravidade dos crimes. Essa omissão contribui para a invisibilidade do sofrimento dessas comunidades e para a impunidade dos agressores...

É imperativo que a comunidade internacional, incluindo a UE, deixe de lado a hipocrisia e a inacção e tome medidas concretas para acabar com a violência sectária na Síria...

O novo regime da Síria tem como presidente interino Ahmad al-Sharaa (Al-Jolani),  terrorista, ex-membro da Al-Qaeda e do Estado Islâmico.

 

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10002

14
Mar25

VIVEMOS EM GUERRA CULTURAL

E NÃO OUSAMOS DIZÊ-LO


Oliveira

Pelo que contêm de muito actual e oportuno, a COPAAEC propõe para leitura e reflexão mais um artigo do jornalista A. Cunha Justo. Oportuno e conveniente, apesar de tudo…

(A. G. Pires)

Precisamos de uma esquerda pós-materialista e de um conservadorismo activo

 A sociedade ocidental vive hoje uma guerra cultural silenciosa, mas profunda, que divide nações, polariza debates e redefine valores. No centro deste conflito está a esquerda (socialismo), que, desde o início do século XXI, abandonou a sua luta tradicional contra o capitalismo e pelos trabalhadores, substituindo-a por uma agenda cultural agressiva centrada em minorias e na desconstrução dos valores ocidentais. Esta transformação, aliada à arrogância das elites políticas e culturais, gerou um distanciamento perigoso entre os governantes e a maioria da população. (Na Europa tanto progressistas como conservadores, em vez de analisarem a necessidade de mudança urgente expressa na eleição de Donald Trump, esgotam-se em conversas de caracter emocional de defesa do status quo sociopolítico!) ....

A partir da revolução cultural de 1968, e especialmente após o ano 2000, a esquerda passou a priorizar uma agenda cultural, focada em temas como identidade de género, sexualidade e desconstrução da família e da cultura ocidental. Esta mudança foi tão absorvente que dominou o discurso público através dos media, da política e das instituições culturais...

A família tradicional, outrora um pilar da sociedade, foi substituída por conceitos como famílias substitutas, grupos woke e transgénero, alienando ainda mais a esquerda das suas raízes populares...

Enquanto a esquerda se fragmenta em múltiplas facções, os conservadores começam a reagir. Nos EUA, a eleição de Donald Trump foi um sinal claro de que uma parte significativa da população está cansada do domínio progressista. Na Europa, o descontentamento com as políticas da União Europeia (UE) e a sua agenda globalista também cresce...

As elites políticas e culturais, incluindo as eclesiásticas e económicas, alinharam-se com esta agenda progressista, mas o povo está farto...

Em vez de ouvirem as dores da população, preferem estigmatizar movimentos populares como "populistas" ou "extremistas de direita", atribuindo a culpa às redes sociais e às fake news...

A UE, por exemplo, chegou ao absurdo de legislar sobre a curvatura das bananas, enquanto ignora questões culturais e identitárias que afectam profundamente as nações...

Para superar esta crise, precisamos de uma esquerda pós-materialista que volte a conectar-se com as preocupações reais da população, sem abandonar a defesa dos mais vulneráveis. Ao mesmo tempo, os conservadores precisam de se renovar, assumindo as boas características da esquerda, como a solidariedade humana concreta, sem cair no extremismo. Neste sentido a doutrina social da Igreja católica podendo este ser um modelo de fidelidade à pessoa e à comunidade (a exemplo do capitalismo social de mercado criado na Alemanha pós-guerra, surgido da colaboração entre sindicalismo e cristianismo)...

A sociedade ocidental precisa de um diálogo construtivo entre esquerda e direita, onde ambas as partes reconheçam as virtudes do outro e trabalhem em conjunto para o bem comum. A sabedoria popular, que ultrapassa a práxis política, deve ser valorizada... Doutro modo a cultura predominante embala-nos: todos aplaudem, ninguém questiona, todos são arrastados pelo fluxo do espírito do tempo.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em “Pegadas do Tempo”: https://antonio-justo.eu/?p=10005

03
Mar25

UMA PAZ JUSTA?


Oliveira

Convidamos os nossos leitores a lerem este artigo de Pedro Vaz Patto, a publicar no jornal digital Voz da Verdade.

(A. G. Pires)

Das várias vezes em que tive ocasião de conhecer e ouvir colegas da comissão Justiça e Paz ucraniana, impressionou-me a intransigência com que defendiam a necessidade de vencer a guerra contra o invasor russo incondicionalmente, «custe o que custar», sem negociações ou cedências, porque estas representariam sempre um “prémio para o infractor”. Salientavam eles também que os planos invasores de Putin não se restringem aos territórios já ocupados, estendem-se a todo o território ucraniano, que, confessadamente, considera parte da Rússia (para não falar num plano mais vasto de restabelecimento da antiga União Soviética, cujo desmembramento já afirmou lamentar como a maior tragédia dos tempos mais recentes).

Afirmavam também esses meus colegas ucranianos a exigência do julgamento e punição de crimes de guerra e contra a humanidade praticados por militares russos, como os massacres praticados em Bucha e noutros locais. A propósito, recebi há dias o anúncio de um colóquio a realizar na Universidade Católica de Lviv sobre a teodiceia depois do massacre de Bucha, isto é, como conciliar a fé em Deus-Amor com a realidade dessa tragédia (do mesmo modo que se tem reflectido na fé em Deus-Amor depois do Holocausto judaico e dos massacres de Auschwitz).

Devo dizer que não me identificava inteiramente com essa intransigência (que, além do mais, levava a críticas severas aos apelos do Papa Francisco à busca incessante da paz através da diplomacia). Reconhecia a legítima defesa ucraniana perante a agressão russa, na linha do que afirma o Catecismo da Igreja Católica (n.º 2308). Mas também a importância de não desistir de alcançar a paz não necessariamente através de uma vitória incondicional (que se tornava cada vez mais utópica), mas de negociações e cedências que não teriam que representar necessariamente um “prémio para o infractor”. É também o Catecismo que afirma que a condição da legitimidade de uma guerra é também a de que os males que acarreta (que se vão agravando com o seu prolongamento e com o uso de meios cada vez mais mortíferos) não sejam superiores aos males que pretende evitar (n.º 2309).

Todos concordávamos, porém que uma verdadeira paz há de ser uma paz justa e duradoura.

Assistimos agora a uma perspectiva de cessação desta guerra que dura há três anos. Tenho pensado muito no que sentirão hoje esses meus colegas ucranianos, sensação que certamente será a de quase todos os seus compatriotas. O fim dessa guerra, em si mesmo, é certamente de saudar. Mas eles também certamente pensarão que não se trata de uma paz justa. Pensarão que foram abandonados e traídos por um governo seu aliado, que a solidariedade para com eles em grande parte se esvaneceu e que poderão ter sido em vão todos os enormes sacrifícios até agora vividos pelo seu povo.

Desde logo porque (é assim, pelo menos, no momento em que escrevo estas linhas) as negociações da suposta paz decorrem sem a presença de qualquer representante do seu governo, decorrem entre o governo agressor e o governo que os abandonou e traiu (o qual não tem pejo em afirmar os seus propósitos de extorquir valiosos recursos minerais ucranianos como compensação pela ajuda prestada até agora – propósito que parece suplantar qualquer verdadeiro desejo de uma paz justa).

Nenhuma preocupação se nota em não premiar o infractor, que violou de forma flagrante o direito internacional e a Carta das Nações Unidas, ao desencadear uma guerra de agressão. Não é só o povo da Ucrânia que perde com isso, é a autoridade do direito internacional que fica em cheque. Qualquer potencial agressor pode esperar ser premiado como Putin.

Nenhuma preocupação se nota em evitar que Putin concretize, mais cedo ou mais tarde, o seu propósito de ocupar todo o território ucraniano. Já muitos observadores salientaram o exemplo histórico do acordo de Munique, que em 1938 reconheceu a ocupação alemã de uma parte do território da Checoslováquia: pensavam os contraentes que essa cedência evitaria o desencadear da guerra, mas ela teve o efeito contrário, precisamente porque se tratou de um “prémio ao infractor”.  

A verdadeira paz não é apenas a ausência de guerra. Vem a propósito recordar o que na encíclica de São João XXIII se afirma sobre os pilares em que assenta a verdadeira paz e que são: a verdade, a justiça, a liberdade e a caridade. Sem esses pilares, não podemos falar numa paz autêntica.

E vem também a propósito o que afirma o Papa Francisco na encíclica Fratelli Tutti (no seu n.º 241) sobre o amor ao opressor (sim, porque o amor cristão não exclui o amor ao inimigo e o amor ao opressor). Mas amar o opressor não significa consentir que este continue a oprimir ou levá-lo a pensar que é aceitável o que faz; amar correctamente é procurar que ele deixe de oprimir, tirar-lhe o poder que não sabe usar e que o desfigura como ser humano; a justiça é guardar a dignidade da vítima, uma dignidade que lhe foi dada por Deus; o perdão não anula as necessidades da justiça, reclama-as.

É deste modo que se constrói uma paz justa, aquela paz justa a que tem direito o povo ucraniano, que continua a merecer, hoje como desde há três anos, a nossa solidariedade.

Pedro Vaz Patto

 

03
Mar25

"ROMA" E "BRUXELAS"DIALOGANDO


Oliveira

Pelo que contêm de muito actual e oportuno, a COPAAEC propõe para leitura e reflexão mais um artigo do jornalista A. Cunha Justo. Oportuno e conveniente, apesar de tudo…

(A. G. Pires)

Era uma noite fria e silenciosa em Bruxelas. As estrelas pareciam distantes, como se também elas tivessem perdido a fé na Europa. No coração da cidade, onde as instituições da União Europeia se erguiam imponentes, duas figuras marcantes se encontravam frente a frente: Roma e Bruxelas. Não eram meros lugares ou cidades, mas entidades personificadas, símbolos de duas forças em tensão constante: Roma, personificação da tradição, da história e das raízes da civilização ocidental, e Bruxelas, símbolo da modernidade, da burocracia e da busca por uma unidade frágil.

Roma, de vestes douradas e olhar sério, trazia em si o peso da história e da tradição. Falava em latim puro, reminiscente das colunas que sustentaram impérios e doutrinas de sustentabilidade. Bruxelas, vestida de vidro e aço, emanava pragmatismo e progresso, discursando numa multiplicidade de línguas, sempre diplomática, mas esgotada na busca de consenso. "Vejo que continuas a tentar construir um império sem alicerces", disse Roma, com uma voz que ecoava séculos de sabedoria. "A tua torre de Babel desmorona-se, e ainda assim insistes em subir mais alto."

Bruxelas respondeu, com um tom defensivo: "Não entendes, Roma. O mundo mudou. Precisamos de unidade, de progresso, de superar as divisões que nos enfraquecem. A Europa já não pode viver de mitos e tradições. "

Roma sorriu, mas havia tristeza no seu olhar. Suspirou e observou as multidões que passavam. Cada rosto era uma expressão do caos ordenado que Bruxelas tentava manter. No entanto, por baixo das fachadas modernas, percebia-se uma fragilidade crescente, uma sociedade cada vez mais desconectada de suas raízes. "Unidade? Progresso? Diz-me, Bruxelas, o que é progresso sem sabedoria? O que é unidade sem identidade? Vejo em ti o mesmo complexo que afligiu tantos impérios antes de mim: a crença na omnipotência, na infalibilidade. Vocês acham que podem governar sem olhar para trás, sem aprender com os erros do passado."

Bruxelas cruzou os braços, revelando incomodação. "Não somos como tu, Roma. Não cairemos na arrogância dos deuses. Temos instituições, leis, um sistema que nos protege dos excessos."

Roma riu, numa gargalhada que ecoou como um trovão. "Protege-vos? Ou aprisiona-vos? Vejo em vossos líderes a mesma vaidade que outrora condenou os meus. Eles acreditam que podem controlar tudo, desde a economia até à natureza humana. Mas o que fazem quando a crise chega? Culpam-se uns aos outros, fecham-se em dogmas, e recusam-se a ver a realidade."

Bruxelas olhou para o chão, hesitante. Sabia do que Roma falava. A Europa, outrora ciente de suas limitações, agora vangloriava-se de uma falsa omnipotência. Os seus líderes, convencidos de sua infalibilidade, impunham dogmas sociais e políticos sem espaço para debate ou reflexão crítica. Nos corredores do poder, qualquer oposição era reduzida a um maniqueísmo simplista: ou se estava com o progresso, ou se estava contra ele. "Talvez tenhas razão em parte. Mas o que sugeres? Voltar ao passado? Abandonar tudo o que construímos?"

Roma aproximou-se, colocando uma mão no ombro de Bruxelas. "Não se trata de abandonar, mas de recordar. A Europa foi construída sobre três pilares: a razão de Atenas, a fé de Jerusalém e o direito de Roma. Vocês esqueceram-se disso; na ânsia de criarem uma ordem perfeita, negligenciaram a humanidade do próprio povo. Em vez de humildade, escolheram a arrogância. Em vez de compaixão, escolheram o cálculo. Em vez de união verdadeira, criaram uma ilusão de uniformidade."

Bruxelas suspirou, e pela primeira vez, sua voz pareceu frágil. "E agora? Como saímos deste labirinto?"

Roma olhou para o horizonte, onde o sol começava a despontar. "Reconhecei as vossas limitações. Aceitai que não sois deuses, mas humanos. Reencontrai as vossas raízes, não para repetir o passado, mas para entender quem sois. E acima de tudo, cultivai a humildade. Como disse um dos vossos pensadores, 'onde a ação humana já não corresponde à existência humana, a verdade transforma-se em mentira'.(1)"

Bruxelas ficou em silêncio por um momento, refletindo. Bruxelas sentiu um calafrio. Sabia que Roma tinha razão. Na sua sede por uma sociedade perfeita, os líderes europeus haviam criado bolhas ideológicas, alimentadas por um ciclo mediático que apenas reforçava o pensamento dominante. Não havia mais intelectuais independentes, apenas burocratas e comentadores que repetiam o que era conveniente. "E se falharmos?"

Roma sorriu novamente, desta vez com uma centelha de esperança. "Então a Europa, como tantos impérios antes dela, será apenas mais uma lição para o futuro. Mas ainda há tempo. A escolha é vossa. Precisamos de líderes que saibam ouvir, que compreendam que governar não é impor, mas servir. Que aceitem que nem tudo pode ser controlado e que a sociedade precisa de raízes para florescer "

Bruxelas olhou para Roma e, por um instante, sentiu o peso da sua responsabilidade. A crise que se espalhava pelo continente não era apenas económica ou política — era espiritual. A Europa havia perdido a sua identidade na ilusão da omnipotência.

E assim, os dois espíritos se despediram, enquanto o sol iluminava as ruas de Bruxelas e o vento soprava entre as estátuas antigas e os edifícios modernos. A cidade continuava a mesma, mas algo havia mudado. Talvez, pensou Bruxelas, fosse hora de olhar para trás, não com nostalgia, mas com humildade, e encontrar um caminho que unisse o melhor do passado com as possibilidades do futuro.

 

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=9940

03
Mar25

“COMPLEXO DE DEUS”: A ILUSÃO DA OMNIPOTÊNCIA E A DECADÊNCIA DA SOCIEDADE MODERNA


Oliveira

Pelo que contêm de muito actual e oportuno, a COPAAEC propõe para leitura e reflexão mais um artigo do jornalista A. Cunha Justo. Oportuno e conveniente, apesar de tudo…

(A. G. Pires)

A sociedade contemporânea vive sob a ilusão de que o ser humano pode tudo e da crença no progresso. Essa crença na omnipotência, que o psicanalista Horst-Eberhard Richter chamou de "Complexo de Deus", não é apenas uma perturbação psicossocial, mas um factor central da decadência moral e cultural que vivemos hoje. No seu livro “Complexo de Deus”, Richter descreve a civilização ocidental moderna como marcada por uma reivindicação de uma omnipotência egocêntrica e quase divina, que ignora os limites da condição humana. Essa ilusão de grandeza, no entanto, é uma fuga frágil diante das crises que nos assolam. Donald Trump expressa de maneira extrema o narcisismo que se tem mantido encoberto nas nossas elites políticas...

Os sentimentos de impotência, baixa autoestima ou problemas não resolvidos da infância podem resultar na superestimação das próprias capacidades, criando assim a distorção psicológica do chamado "complexo de Deus". Este fenómeno leva ao dogmatismo das opiniões e à ilusão de infalibilidade, como se a próprio ponto de vista fosse o único correto. Essa postura impede o desenvolvimento do autoconhecimento e da autocompreensão. Uma convivência equilibrada com os outros promove uma avaliação realista de nossas capacidades e limites, em contraste com uma identidade baseada em projeções idealizadas de si mesmo...

Em tempos de guerra, esse complexo intensifica-se, fomentando uma mentalidade maniqueísta e dicotómica, em que tudo é reduzido à alternativa "bem" ou "mal"...

Esse mesmo complexo também se manifesta nas relações interpessoais. Manter distância emocional de pessoas que sofrem dessa ilusão de grandeza é essencial para evitar ser arrastado para a mesma inquestionabilidade que pode criar-se em ambientes tóxicos...

A ideia do "super-homem" de Nietzsche, embora fascinante, é unilateral e conduz ao sofrimento, pois desconsidera a dimensão humana da existência. Bento XVI, ao alertar sobre esse perigo, afirmou: "Onde a ação humana já não corresponde à existência humana, a verdade transforma-se em mentira"...

No passado, a sociedade contava com intelectuais que forneciam orientação e autoridade moral, muitas vezes em oposição aos governantes. Durante séculos, a Igreja desempenhou esse papel...

O extremismo narcísico apoiado pelo grande capital leva as grandes potências a lutar pela hegemonia e dificulta uma política de bem comum. Assim o que restará para o povo é o que fica dos militares e da luta das corporações económicas entre si...

O desafio é substituir a ilusão de grandeza pela humildade de reconhecer os nossos limites e agir em harmonia com os outros. A resposta à crise não está na subordinação de todas as acções à economia, como defende Trump, mas no resgate de uma cultura baseada no "nós", que valorize a compaixão, a reflexão crítica e o respeito pela condição humana (“amor ao próximo”).

 

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=9943

03
Mar25

DESAFIO ENTRE POLÍTICA E ÉTICA


Oliveira

Pelo que contêm de muito actual e oportuno, a COPAAEC propõe para leitura e reflexão mais um artigo do jornalista A. Cunha Justo. Oportuno e conveniente, apesar de tudo…

(A. G. Pires)

Política, Ética e os Desafios da Governação no Mundo Contemporâneo

 A necessidade de limitar o poder para evitar regimes totalitários é evidente. No entanto, hoje enfrentamos um "totalitarismo brando", influenciado por agendas e ONGs...

.... No contexto global, é crucial reconhecer que países como a China e a Rússia podem necessitar de regimes autoritários em fases intermédias do seu desenvolvimento histórico. Impor valores ocidentais a estas nações, sem considerar as suas particularidades culturais e históricas, pode levar a conflitos internos e desestabilização. A contenção e o respeito pelas trajetórias distintas de cada povo são essenciais para evitar insurreições e promover uma coexistência pacífica no sentido de uma cultura de paz ...

No entanto, mesmo este sistema não está imune a manipulações, e a miopia das massas pode ser tão perigosa como a brutalidade dos governantes...

A desconstrução da instituição família pelo estado progressista é outro fenómeno preocupante, que merece uma reflexão profunda...

A aspiração moral de combater a tirania e promover a justiça é legítima, mas carece de instituições capazes de a concretizar. Como bem lembrou Voltaire, "É perigoso ter razão quando o governo está errado".

 

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo in Pegadas do Tempo:  https://antonio-justo.eu/?p=9947

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