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CONFEDERAÇÃO PORTUGUESA DE ANTIGOS/AS ALUNOS/AS DO ENSINO CATÓLICO

Espaço aberto a comunicações de antigos alunos do ensino católico em Portugal.

Espaço aberto a comunicações de antigos alunos do ensino católico em Portugal.

CONFEDERAÇÃO PORTUGUESA DE ANTIGOS/AS ALUNOS/AS DO ENSINO CATÓLICO

17
Mai24

Preciosa herança


Oliveira

Com a devida vénia, transcrevemos para os leitores do nosso Blog o artigo que segue, do Dr. Pedro Vaz Patto, que explicitamente o partilhou connosco.

(A. G. Pires)

A polémica gerada pelas declarações do presidente da República sobre reparações pelos crimes do colonialismo e da escravatura veio transpor para o nosso país uma polémica mais ampla que é associada à chamada cultura do cancelamento e ao chamado wokismo. Pode dizer-se que este movimento, que partiu dos Estados Unidos, sinteticamente se caracteriza pela rejeição do legado cultural do Ocidente de tradição cristã por ser algo de acentuadamente negativo.

Os críticos dessa proposta e desse movimento têm acentuado, entre outros aspectos, que o passado não deve ser julgado à luz dos valores hoje consensualmente aceites e que os erros e crimes da civilização ocidental não podem ser denunciados unilateralmente, esquecendo os erros e crimes de outras civilizações suas contemporâneas ou que a precederam (também elas marcadas pela escravatura, por exemplo).

Será oportuno recordar, a propósito, como São João Paulo II, de modo profundamente inovador e recorrente, pediu perdão pelos pecados dos “filhos da Igreja” ao longo dos séculos. Disso fala, entre outros, o livro do jornalista italiano Luigi Accatoli Quando o Papa Pede Perdão (tradução portuguesa da Editora Paulinas, Prior Velho, 1997). Esses pedidos culminaram na celebração do Jubileu do ano 2000. Nessa ocasião foi publicado, a pedido desse Papa e com a intervenção de então cardeal Ratzinger, um documento da Comissão Teológica Internacional com o título Memória e Reconciliação- A Igreja e as Culpas do Passado, onde se analisa o sentido desses pedidos e as possíveis objecções a tal atitude.

Na verdade, houve na altura quem temesse que essa atitude representasse uma cedência aos inimigos da Igreja que, de forma preconceituosa e injusta, vêm criticando o seu papel histórico. Também se alegava, então, que os juízos sobre acções do passado devem situá-las no seu contexto, com os condicionalismos socias e culturais próprios desse contexto. Em resposta a estas objecções, esse documento afirma que esses condicionalismos não podem, na verdade, ser ignorados e podem ser encarados como atenuantes, mas tal não implica aceitar uma apologética que tudo desculpa, ou um historicismo que tudo justifica como se não houvesse valores universais e intemporais. Denunciar os erros e culpas do passado é um acto de humildade e coragem que credibiliza a Igreja, contrariando os efeitos de escândalos e contra-testemunhos anti-evangélicos que minam essa credibilidade. São indicados, como exemplo, o uso da violência para pretensa defesa da verdade (a Inquisição), a hostilidade para com os judeus e as responsabilidades pela divisão dos cristãos e pelos males contemporâneos, incluído o do ateísmo. Sempre se reconheceu que a Igreja é santa e carente da purificação dos seus membros, nela coexistem o trigo e o joio, a santidade e o pecado. O reconhecimento das culpas do passado serve um propósito de purificação da memória e de reconciliação.

Na verdade, importa situar no seu contexto acções do passado que eram então prática corrente e hoje já não o são (ou continuam a ser, embora mais claramente condenadas). Mas não pode esquecer-se que já então contrariavam a mensagem cristã que era conhecida de muitos. Ao ler, no livro de Roger Crowley Conquistadores – Como Portugal Criou o Primeiro Império Global (Editorial Presença, Lisboa, 2020), o relato de chacinas e saques sistemáticos dos portugueses que lutavam em prol “da fé e do império”, sabemos que essas práticas eram então comuns, mas não podemos ser indiferentes ao contra-testemunho que representavam na perspectiva da pretendida evangelização.

Importa, porém, salientar também outras facetas do legado civilizacional do cristianismo que suplantam essas facetas negativas e que são ignoradas pela cultura do cancelamento e pelo wokismo.

No referido documento da Comissão Teológica Internacional, também se afirma que o reconhecimento das culpas de filhos da Igreja no passado não representa a «negação da sua história bimilenária claramente rica de méritos nas áreas da caridade, da cultura e da santidade».

Também nos servem de lição, a este respeito, as recorrentes mensagens de São João Paulo II, que exaltava as raízes cristãs da cultura de nações que visitava, desde a sua Polónia natal até ao nosso país sobretudo a partir do testemunho de muitos santos. Realçou, muito especialmente, a importância do reconhecimento das raízes cristãs da cultura europeia, além do mais no Tratado Constitucional da União Europeia. Em Santiago de Compostela, em 1982, afirmou com veemência: «Eu, Bispo de Roma e Pastor da Igreja universal, de Santiago, te lanço, velha Europa, um grito cheio de amor: Volta a encontrar-te. Sê tu mesma. Descobre as tuas origens. Reaviva as tuas raízes. Revive aqueles valores autênticos que tornaram gloriosa a tua história e benéfica a tua presença noutros continentes.

Para descobrir e evidenciar o legado civilizacional de raiz cristã, importa ter em conta algumas realidades.

Por um lado, há valores hoje tão comummente aceites que nos fazem esquecer que tal nem sempre assim sucedeu e, sobretudo, tal não sucedeu nas sociedade e culturas pré-cristãs ou não influenciadas pelo cristianismo. Por outro lado, a semente lançada pela mensagem cristã não germinou, cresceu e deu frutos de imediato. Levou o seu tempo até que dela fossem retiradas todas as suas consequências no plano social e cultural (e certamente ainda não o foram plenamente). O potencial revolucionário do Evangelho foi ofuscado pela mentalidade do tempo (e é bom ter isso presente, também quando se receia contrariar a cultura hoje dominante), ainda influenciada por várias formas de paganismo, mesmo numa “cristandade” sobretudo formal e exterior.

Considerando tudo isso, há que salientar o inegável e incomparável contributo histórico do cristianismo no reconhecimento da dignidade da pessoa, da mulher, da criança, dos mais pobres e vulneráveis, da família e de qualquer trabalho, e dos valores da solidariedade, da justiça social, da paz, da educação, da arte e da ciência.

 

Sobre estes temas, há vários livros cuja leitura recomendo:

. Francesco Agnoli, Indagine sul Cristianesimo- Come si è costruito il meglio della civiltà ( La fontana di Siloe, Turim, 2014);
. Marina Mota, Carismatica Europa – Come i santi hanno rivoluzionato la storia dell´Occidente, (Città Nuova, Roma, 2015);
. Jean Francçois Chemain,  Ces Idées Chrétienmes qui Ont Bouleversé le Monde (Artége, Perpignan 2023);
. Nick Spencer,  The evolution of the West- How christianity has shaped our values (SPCK Londres 2016);
. Rodney Stark, The Triumph of Reason (Random House, Nova Iorque, 2005);
. Tom Holland,  Dominion – The making of the western world (Little Brown, Londres 2019);
. Alvin Schmidt,  How Christianity Changed the World (Zonderman, Grand Rapids 2004);
. Davi Brog; In Defense of Faith – The judeo-christian idea and the struggle for humanity (Encounter Books, Londres-Nova Iorque, 2010).

Somos, pois, e apesar de todos os pecados e crimes cometidos em seu nome, beneficiários de uma preciosa herança.

Pedro Vaz Patto é presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica.

01
Mai24

Um caminho de reconciliação


Oliveira

Com a devida vénia, transcrevemos para os leitores do nosso Blog o artigo que segue, do Dr. Pedro Vaz Patto, que explicitamente o partilhou connosco.

(A. G. Pires)

Foi muito bem acolhida, pela generalidade da chamada “opinião pública”, a notícia de que os bispos portugueses definitiva e claramente deliberaram atribuir compensações financeiras às vítimas de abusos sexuais praticados no contexto da Igreja. Alguns equívocos e hesitações iniciais suscitaram incompreensão e crítica, como se não fosse autêntica e consequente a proclamada solidariedade (onde se incluía um pedido de perdão) para com essas vítimas. Essas dúvidas estão hoje definitivamente superadas.

Importa também sublinhar que se tratou de uma deliberação unânime. Juntando alguma informação correcta com alguma especulação, vinha sendo difundida a ideia de uma profunda divisão da Conferência Episcopal a este respeito. Perspectivava-se, por isso, a possibilidade de cada diocese seguir os seus próprios critérios, que poderiam divergir dos de outras, com as injustiça e desigualdades que tal poderia gerar, para além de uma lamentável imagem de desunidade da Igreja. Também esse perigo está hoje afastado.

Subjacente a esta deliberação, está, precisamente, o reconhecimento de um especial dever de solidariedade para com essas vítimas, que vai para além de uma responsabilidade jurídica. É certo que em várias situações poder-se-ia também analisar a questão nessa óptica, porque a prática do crime ocorreu devido à omissão de deveres de vigilância e punição da parte da hierarquia. Mas nem sempre tal aconteceu, pois há vítimas que só agora denunciaram crimes de que ninguém teve conhecimento na altura. Também para com estas vítimas recai tal dever de solidariedade. Também há que sublinhar, por outro lado, que essa perspectiva jurídica deixaria de fora um grande número de casos (senão mesmo a grande maioria) já cobertos pela prescrição à luz da lei civil e da lei canónica.

Esse dever de solidariedade não deve, porém, ser encarado como algo de menos intenso do que um dever jurídico, que possa conduzir a uma menor protecção das vítimas. Não se trata de um dever geral de solidariedade para com a as vítimas de quaisquer crimes ou de quaisquer outros flagelos. Trata-se de um dever especial para com quem viu traída a confiança que depositou em representantes da Igreja. Perante tais situações, a Igreja não pode reagir com indiferença e insensibilidade. Seria reagir com indiferença e insensibilidade deixar a atribuição de compensações financeiras apenas aos autores dos crimes, que não deixam de ser por elas responsáveis, mas cuja responsabilidade não pode ser concretizada por vários motivos: porque já faleceram, porque não têm recursos financeiros ou porque poderão invocar a prescrição desses crimes (e alguma dessas situações ocorrerá na maior parte dos casos).

As vítimas destes crimes são filhas e filhos da Igreja que não conheceram o seu lado materno. Pelo contrário, a conduta de alguns dos seus indignos representantes, em tudo contrariou essa maternidade da Igreja. Por isso se compreende que muitas vezes essas vítimas dela se tenham afastado (há relatos impressionantes de pessoas que nunca mais quiseram sequer entrar numa igreja, até por ocasião de baptismos e casamentos). Mas a Igreja não pode deixar de as considerar como filhas, tanto quanto considera os sacerdotes ou os leigos praticantes. Nem essas vítimas merecem menos consideração do que outras vítimas que não se afastaram da Igreja porque, apesar de todo o seu sofrimento, souberam reconhecer essa maternidade ofuscada por esses crimes, como chagas que ferem gravemente o corpo de Cristo, o desfiguram, mas não o destroem, porque é válida a promessa de que as forças do Mal, apesar de activas e fortes, não prevalecerão sobre a Igreja (Mt. 16, 18).

Porque a Igreja, como mãe, faz seu o sofrimento dessas vítimas, desses seus filhos e filhas, quer fazer tudo o que está ao alcance para o minorar. É este – a meu ver – o fundamento das aludidas compensações financeiras. Não é esta, certamente, a única ou a principal forma de minorar esse sofrimento. Mais importante é outra, que já vem sendo implementada há algum tempo: a prestação dos necessários serviços de apoio psicológico e psiquiátrico. Mas esta também se insere num processo global de procura de cura e reabilitação.

Penso que a expressão “compensações financeiras” é a mais correcta. Não se trata de reparar o que não pode ser reparado. Nem de indemnizar com o sentido de fazer desaparecer um dano, o que nunca o dinheiro poderá fazer. Mas, de algum modo, compensar, através das oportunidades que recursos financeiros podem conferir, esse dano. Por isso, o montante em causa deverá ser significativo e proporcional à gravidade do dano, não meramente simbólico. Mas também não deve corresponder a uma ilusória pretensão de eliminar esse dano, como se de um “preço” se tratasse, como se fosse possível pagar o que não tem preço.

Oxalá possam estes gestos de atribuição de compensações financeiras ser mais um passo, entre outros, num caminho de justiça, perdão e reconciliação.

Pedro Vaz Patto

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